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# A (in)conveniência do 'Wi-Fi grátis' em Gramado

… e uma pequena lição sobre portabilidade, quiçá.

No fim de Janeiro, dia 26/01, voltei do litoral aqui para Gramado por ônibus. A viagem em si foi tri tranquila, parece que as rodovias melhoraram bastante nos últimos anos.
Cheguei já pelas 7h da noite, mas ainda com o céu claro. Peguei minhas malas e fui à entrada da estação ligar para minha família e pedir para que viessem me buscar — afinal, ninguém tem bola de cristal e todo mundo sabe que os horários de chegada podem variar em coisa de meia-hora para mais. Quando puxei o celular para ligar, naturalmente fui para o WhatsApp, pois eu (e mais a torcida do Flamengo) costumo ligar por lá, isso quando não aviso por mensagem. Além disso, eu também estava com o saldo expirado, então não conseguia ligar pela boa e velha linha telefônica.
Logo fui atrás de uma conexão de Internet gratuita dentro da rodoviária.
Como de se esperar, tinha, e de forma bem convidativa até: “Gramado Free WiFi”.

Estava protegido por um portal cativo, o que é normal em conexões de Wi-Fi público mundo afora — inclusive, alguém lembra daquela creepypasta do “WiFi grátis”? Então, as páginas com as tais perguntas escritas em “letras vermelhas sinistras” eram parte do portal cativo.
Abrindo uma tangente: o nome “portal cativo” em si é um calco — ou seja, um empréstimo direto que é traduzido de forma literal — do inglês “captive portal”. Por mais que esteja correto na ideia de prender o usuário até que ele complete uma série de verificações, sejam essas automatizadas ou manuais (como preencher um formulário), o nome “cativo” é um adjetivo, sendo não “o que prende”, mas “o que é preso”, então presumo que o correto seria algo na linha de “portal-cativeiro”, se fôssemos “re-calquear” de forma adequada. Não sou professor de português, então posso estar errado.
Cá no Brasil, o portal cativo ganha uma utilidade extra, que é garantir que a Lei Geral de Proteção de Dados, a LGPD, seja cumprida, mais especificamente na parte de responsabilização e prestação de contas, caso necessário, além de informar, de forma transparente, quais dados serão capturados (até mesmo inevitavelmente) durante o uso da rede.
Enfim, é uma simples formalidade, e o portal cativo torna-se uma comodidade… E bem, e onde eu estava?
Era só questão de conectar, aceitar uma lista de termos de uso relacionados à LGPD (e ao próprio serviço) e já poderia prontamente mandar uma mensagem dizendo que cheguei na cidade, certo?

Lógico que não! Ficou em loop nos 0%. Recusou-se, silente, a conectar — possivelmente por conta de alguma verificação, algum “aperto de mão” com o meu aparelho.
Nem uma mensagem de erro, nem um “esse navegador não é mais suportado” ou, até mesmo, um erro cru do JavaScript… Nada. Nadica de nada.
Todavia, naquele momento, eu ainda esperei um bocadinho na esperança de que aqueles 0% far-se-iam em 100% pois, bem, seria menos inconveniente esperar mais um minuto que fosse do que ter que pegar as minhas malas e ir para casa a pé, uma indiada que seria digna de uma milonga.
Ainda assim, nada. Preso em 0%.

Bem, peguei minhas malas e fui caminhando até ao Nacional — que mudou de nome para Carrefour em 2023, para quem não conhece a cidade —, esse que fica só uns 300 metros depois da estação.
Quando cheguei, tentei conectar no Wi-Fi de lá. Como eu até já sabia que ia acontecer, a conexão caiu assim que saí de dentro do mercado, literalmente após passar pela porta da frente.

O Hard Rock Café, que fica literalmente na frente do Nacional, tem uma conexão de Internet. E adivinha só:

Sem saber muito o que fazer, tentei conectar na rede do Rek Parking.
Não é obrigação nenhuma deles servir Internet ao público, mas alguns desses quiosques eletrônicos oferecem uma conexão até que bem estável, mesmo que com curto alcance — seja por sorte ou por cortesia, afinal são poucos, tão poucos que só vi um até hoje (e eu apenas presumo que aquele não seja o único em toda a cidade).

Cá um desses quiosques eletrônicos em frente à R. Coberta

Não tive sorte, abria uma espécie de portal administrativo pedindo um CPF e uma senha. Muito provavelmente é para manutenção do quiosque.

Imagem meramente ilustrativa; se acharem alguma falha de segurança aí, não fui eu que cantei a pedra

Quando eu já ia me preparando para a indiada de ir a pé, passo em frente a um Milky Moo que abriu recentemente ao lado do Nacional e vejo em meu celular que eles têm Wi-Fi, mas com senha.
Entrei e, um tanto que na cara-de-pau, pedi pela senha do Wi-Fi. Na mesma hora, uma das atendentes puxou o celular com um QR-code aberto e passou para a outra me deixar escanear. Agradeci a elas pela cortesia, até porque há estabelecimentos lá por perto que se recusam a passar a senha do Wi-Fi se você não for comprar algo.
Escaneei, conectei e finalmente consegui me comunicar.
E algo que vale a pena ser citado é que a conexão funcionava perfeitamente do lado de fora, então deu para utilizá-la sem inconveniência nenhuma.
Graças a isso, consegui chegar em casa menos de 15 minutos depois.

Não é a primeira vez que eu tenho alguma inconveniência com esse tipo de portal cativo em si, mas esse evento me fez parar para perceber que, além da probabilidade disso ser um problema muito maior com alguém que de fato não conheça a cidade — principalmente considerando que o credenciamento para o XII Gramado in Concert estava para começar dois dias depois e que muita gente de fora, tanto da cidade quanto do país, estava a chegar —, seria um excelente tema para um artigo com uma abordagem mais, digamos, “ciber-jornalística”; algo além da crônica (e do opinativo), na linha do que eu fiz em Outubro do ano passado quando falei sobre a 1ª Oktoberfest de Gramado, então tomei a iniciativa de fazer uma análise mais profunda a respeito.

Sendo chato como sou, decidi pesquisar mais sobre a Estação Rodoviária para saber se seria cabível reclamar com eles/deles, principalmente porque, mesmo estando sob administração de rēs prīvāta por concessão, ainda é rēs pūblica — como todas as estações rodoviárias centrais de um município no país, afinal, são consideradas obras anexas às estradas de rodagem, tanto quanto pontes, o que faz, tanto da obra quanto do terreno onde se situa, rēs do Estado; isso é algo que vem desde, pelo menos, a lei nº. 467/1937 (mais especificamente o art. 2º, al. b), que define as competências do finado DNER (sucedido pelo DNIT durante o FHC II).
No entanto, isso não seria tão eficaz, até porque eles não têm nada a ver com o serviço de Wi-Fi em si (além de serem contratantes). O máximo que poderiam fazer é me dizer o nome (ou me dar um número de telefone) da empresa que provê o serviço — o que nós já sabemos, afinal era parte do nome da rede — e pedir para falar com eles.

Eu sei que a Flexspot atua aqui na cidade e não é de ontem, pois lembro de ter entrado no Wi-Fi do hospital daqui ainda lá em 2019 (em Fevereiro se minha memória não me engana), e o serviço de portal cativo era, justamente, o deles. Para ser franco, quando usei, o serviço foi muito bom. O portal era simples como deveria ser e meu aparelho da época, e que era verdadeiramente antigo já em 2019, um iPhone 5, conseguiu entrar sem problema nenhum.
Meu aparelho atual, um ASUS Zenfone, apesar de já ser considerado antigo, ainda é bem integrado com o mundo atual.

A versão do Android em si e a do CaptivePortalLogin

Fazendo uma comparação linear, sim, ele é tecnicamente tão antigo quanto o iPhone 5 já era em 2019, com sete anos de idade. A diferença é que esse ainda funciona perfeitamente com tudo (ou bem, quase tudo).
Enfim, de volta ao que interessa.

Abri o Google e pesquisei apenas o nome da empresa. De primeira, já tinha o cartão de visita digital deles lá, com endereço, telefone e tudo mais, além do site como primeiro resultado:

A primeira coisa que percebi é que a empresa é aqui de Gramado, o que francamente me pegou de surpresa, afinal a gente não espera que uma cidade relativamente pequena vá ter uma empresa de tecnologia nesse porte.
Em seguida, vi que tinha uma avaliação para lá de calorosa vinda de um cliente que parece realmente enamorado pelo serviço:

Eu não vou dizer que foi de enorme surpresa, afinal, de fato, tem clientes que ficam extremamente satisfeitos com o serviço de uma empresa e resolvem elogiar — por mais que isso soe quase como um anúncio de vendas da Polishop do que como um mero elogio ao meu ver.
E, diga-se de passagem, ele não é obrigado enquanto cliente (que suponhamos ser leigo) a saber de toda e qualquer incompatibilidade técnica do código que está por detrás do serviço e nem testá-lo em diversos aparelhos — até porque isso seria responsabilidade da equipe de programadores —, então é absolutamente possível que ele tenha ficado enamoradamente satisfeito.
No embalo e em paralelo, eu voltei à página de pesquisa principal e rolei mais um bocadinho, e vi que eles têm um LinkedIn; o que é natural, já que toda empresa, principalmente de software, de tamanho pequeno a grande e que tenha ambições de continuar a expandir suas operações em alguma escala, vai manter um:

Rolei mais um pouco a página e acabei por chegar até à lista de funcionários:

É, isso é intrigante: parece que um xará de nome e sobrenome do cara que deu a avaliação ali em cima também trabalha na Flexspot.
Eu realmente fiquei intrigado para saber se não seria, por ventura, a mesma pessoa. Como eu não tenho mais conta no LinkedIn faz um tempo — ao menos desde que estive empregado, ou seja, desde 2022 —, não consegui olhar a lista de funcionários por ali para ver qual era a posição de cada um.
Fui, então, descobrir pelo menos quem era dono ou sócio ali daquela lista, para já matar algumas possibilidades.
Existem várias formas de ver quem está por trás de uma empresa (e o contrato social por inteiro), tanto independentes — como o minhareceita.org, de co-autoria e atualmente operado pelo Eduardo Cuducos (cuducos), que usa o banco de dados de CNPJs direto da Receita e o redisponibiliza em formato JSON; também há outros serviços que operam de forma parecidíssima ao minhareceita.org, mas de código-fechado e com foco comercial —, quanto pelo próprio gov.br, por meio da ferramenta de consulta pública de CNPJ do Redesim (consultacnpj.redesim.gov.br), que, apesar de disponibilizar os mesmos dados que qualquer cidadão brasileiro conseguiria ter acesso simplesmente indo ao Portal de Dados Abertos do Ministério da Fazenda e baixando um arquivo .zip, prende esses dados atrás de uma janela de logon do gov.br. Mas, bem, isso é mero detalhe.
Por uma questão de formalidade, decidi usar a Redesim diretamente.
Pesquisei pelo CNPJ, o qual eu já sabia por causa dos termos de uso no site deles, e pedi para emitir apenas o quadro societário:

Parando para pensar, ter ido até à Redesim para ver esse detalhe ao invés de simplesmente tentar cavocar os perfis parece um belo de um exagero — até porque ninguém esconderia uma posição de sócio —, mas cá está.
Quem fez a avaliação em um tom quase enamorado e o sócio são, de fato, a mesma pessoa — e, se tinha algum espaço para dúvida, repare que a foto também parece idêntica.
Isso é algo que geraria estranhamento em grande parte das pessoas — afinal, como disse um dos amigos com quem conversei sobre isso, “se o trabalho é bom, que os outros avaliem” —, mas vou bancar o advogado do diabo aqui, pois tenho a completa consciência da necessidade de se vender o peixe que toda empresa tem.
Para ser mais específico, essa é uma estratégia que foi, para dizer o mínimo, interessante. Quem leva o cliente no gogó não são as avaliações em si, mas sim o que a “visão geral criada por IA”/”Modo IA” do Google entende delas.
Eu suponho que, ao invés de pedir para clientes leigos avaliarem diretamente com uma escrita “não-padronizada”, eles mesmos prefiram condensar os elogios em vários comentários de contas diferentes escritos de forma otimizada para a IA do Google, assim tendo um resumo mais conciso e positivo possível para quem pesquise sobre os serviços deles.

No cartão de visita ainda tem um link para o Instagram e o Facebook, os quais decidi olhar porque por que não?
Eu tinha uma noção de que eles atuavam há tempos, como já falei — e que, segundo o LinkedIn e o site, é desde 2015 —, mas não sabia que eles eram realmente antigos; coisa que eles não escondem, pelo contrário.
A Flexspot é, na realidade, uma subsidiária da Gtek Informática.
E sim, subsidiárias têm CNPJ e contrato social próprios, algo que eu também não sabia antes de sentar para escrever esse artigo.
O nome Gtek sempre me foi conhecido. Não faço ideia até onde isso seria um caso de “efeito Mandela”, mas lembro de ver adesivos com a logo deles em computadores em vários lugares da cidade desde que eu moro aqui, coisa que é praxe de empresas que lidam com hardware.
Por curiosidade, fui ver o site deles, gtek.com.br, no Web Archive, até porque o domínio aparece no WHOIS como tendo sido criado em Abril de 2001.
As versões mais antigas, que vão até 2004, estão com a parte gráfica quebrada, o que é infeliz mas que, obviamente, não é culpa deles, até porque o responsável por obter as informações e salvá-las é o crawler do Web Archive:

No entanto, mesmo com muita informação faltando na página, dá para se ter uma boa noção de que eles já vendiam hardware e também trabalhavam com assessoria de T.I. (ao menos suponho por conta da seção sobre segurança e backups) desde aquela época, e que sempre foram mais direcionados ao mercado corporativo.
A única captura do site deles pelo Web Archive que está inteira é de Agosto de 2013, e cá pode-se ver que eles já trabalham com manutenção de equipamentos, além de agora terem expandido seus serviços de assessoria e também estarem de olho na parte de redes:

Essa eu tenho certeza que os fãs de “Frutiger Aero” vão amar

Em suma, eles têm café no bule. Não surgiram menos de 10 anos atrás para pegar uns “pilas” com código que foi 90% derivado de projeto de código-aberto e 10% porcamente remendado; e eu acredito que esse café também foi passado para o bule da Flexspot.
A propósito, cá vai um fun fact: a Gtek existe e atua há mais tempo, que são 23 anos (considerando que o contrato social da empresa tem a data de Outubro de 2002) do que o nosso atual vereador — e agora ex-chefe de gabinete do prefeito Tissot, e “ex” com 179.289,98 motivos diferentes, e mais alguns vários outros bons motivos que, se eu for lembrar e começar a divagar acerca, essa tangente vai aumentar tanto que será paralela ao raio — Rafael Ronsoni tinha de idade quando assumiu a Subprefeitura da Várzea Grande, “apenas 21 anos”.
Ou seja, se a Gtek fosse um CPF e não um CNPJ, já poderia até ser subprefeita, e com folga.
E, diga-se de passagem, não se trata de tempo de contrato social, é tempo de atividade.
Isso me obriga a dizer de novo: é café no bule, e não é pouco.

Em paralelo, quando esse artigo era só um rascunho na minha cabeça — e uns bons dias depois que cheguei de viagem —, eu estava envolvido no Gramado in Concert.
Num fim de tarde, depois de subir de volta para a R. São Pedro, passei em frente à Câmara de Vereadores.

Só para não dizer que perdi o hábito de bancar o fotógrafo

Nisso, senti meu celular no bolso. Achei estranho, pois meu 4G não estava a funcionar de qualquer maneira por conta de uma má configuração de APN do chip no aparelho (e que eu só corrigi depois que descobri que o chip dos Correios não se “auto-configura” por padrão em todos os aparelhos), então não teria como receber notificação de nada além de SMS. Mas que zorra? Quem me mandaria um SMS em 2026? Além da operadora, lógico.
Então eu puxei o celular e fui ver o que era, e era uma notificação de “Faça login na rede Wi-Fi”. Como eu já estava com esse assunto na minha cabeça, resolvi checar, até caso fosse para pegar mais material para esse artigo e conseguir fazer uma análise mais completa.
Imaginei, no primeiro momento, que era do Conecta Gramado, que eu já pretendia (e vou) citar aqui como exemplo a ser seguido. No entanto, diferente de outros pontos de acesso do programa pela cidade, que mantêm o mesmo nome de rede, esse aqui se chama “Hotspot Camara”, e adivinhe:

A Câmara de Vereadores de Gramado contratou a Flexspot. E o motivo? Vamos descobrir.
O governo, independente do nível, é obrigado a publicar sua intenção de compra em forma de uma licitação — o que eu creio que praticamente todo mundo saiba, mesmo que pouca gente vigie —; afinal, o que envolver a rēs pūblica há de ser de conhecimento público.
Como de praxe, pesquisei pela página da transparência da Câmara de Vereadores e o primeiro resultado do Google foi “www.gramado.rs.leg.br/transparencia”.

Cliquei então em “Licitações e Contratos” — que leva, como de se esperar, a uma subpágina chamada “licitacoes-e-contratos” —, onde com certeza deve ter uma interface que permita se buscar licitações e contratos. Certo?

Errou!

Ele simplesmente redireciona para uma página de logon, mas não diz nem ao menos onde pode-se criar uma conta.
Agora algo engraçado: se você pesquisar no Google por “Câmara de Vereadores de Gramado licitações”, sem aspas, o primeiro resultado que aparece é de uma subpágina chamada “licitacoes-e-contratos”, mas dentro da “licitacoes-e-contratos” que acabamos de tentar acessar — sim, é literalmente “www.gramado.rs.leg.br/transparencia/licitacoes-e-contratos/licitacoes-e-contratos”.
E o que tem lá? — você deve estar se perguntando. Bem, pelo visto é uma lista de afazeres escrita por alguém da Câmara para a equipe de T.I. que descreve como essa seção do site deve operar:

“Não se deve exigir cadastro prévio para acessar as informações sobre licitações e contratos. Caso exista essa.”

Pelo visto alguém da T.I. fez bagunça mesmo com a instrução clara.
É, padrão.
Enquanto eles não arrumam, a gente pode ir por força bruta ou ir ao Portal Nacional de Contratações Públicas, o PNCP.
Como vivemos numa república de estados unidos, apesar de cada estado (e cada município) ter sua autonomia, a União tem autoridade máxima. Por conta disso, esses dados também devem ser acessíveis por meio dela e seu acesso não está sob monopólio do município.
Se falar com anjo não adianta, vai ter que falar com Deus.

Vários dados estão disponíveis aqui, mas o que nos interessa é a seção de “Contratações”:

Aqui temos um mecanismo de busca para todos os órgãos públicos do Brasil.
Eu selecionei a Câmara de Vereadores de Gramado e pedi para pesquisar por todos os tipos de instrumento convocatório — vulgo licitações, simplificando o termo — e, por estar a fazer uma pesquisa ampla, o sistema me obrigou a procurar por uma palavra-chave em específico, que eu decidi ser “Wi-Fi” já que seria a mais provável de estar:

Então foi só clicar em “Pesquisar”. Nisso, descobri três licitações que tinham “Wi-Fi” em sua descrição:

Só bater o olho para ver que a que procuramos é a última da lista: PRD 4/2025.
Ela fala exatamente sobre contratar um “serviço gerenciado de hotspot Wi-Fi […] em conformidade com a LGPD” e está como uma dispensa de licitação:

A dispensa de licitação, como o nome indica, é quando todo o processo de uma licitação tradicional em si (como a competição por custo-benefício) é ignorado, ou seja, dispensado, para que seja feita uma contratação direta.
Sim, isso é totalmente e devidamente legal — e, diga-se de passagem, formalmente desde a República Velha, vide o art. 51 do DPL nº. 4.536 —, e é aplicado em casos específicos.
É lógico que, em mais de 100 anos desde o DPL de Janeiro de 1922, a lei foi refinada e (muito) mais exigências foram postas, a fim de aumentar a transparência e estreitar ao máximo caminhos que pudessem levar à corrupção — mais especificamente com o advento da Nova República, com a lei nº 8.666/1993, sancionada pelo saudoso presid. Itamar Franco, que agora passa a exigir razão sólida e documental para essa modalidade (art. 26), e com previsão legal de punição em caso de superfaturamento (art. 25, § 2º) —, além de demais possibilidades para que houvesse contratação direta.
No entanto, mesmo que tenha havido um aumento de possibilidades, elas ainda resumem-se em casos de emergência, onde o serviço seja indispensável em uma janela de tempo muito pequena para que possam ocorrer todas as formalidades de um edital, quando não houver concorrência alguma, quando for um serviço extremamente especializado ou quando o valor for (relativamente) irrisório — esse que, pela lei de 1993 (e considerando as alterações de 1998), é de R$ 8 mil, ou “10% do limite previsto na alínea ‘a’ do inciso II do artigo anterior” (art. 23).
Fiz esse lero-lero não para que você sofresse de tédio, mas para conseguir contextualizar o amparo legal, a “base na lei”, para que a Flexspot fosse contratada diretamente.

Você provavelmente percebeu que o amparo legal em questão é uma tal lei 14.133/2021, não a 8.666/1993. Fazendo um resumo resumido, ela é extremamente similar à de 1993, mas modernizada — inclusive, foi ela que instituiu o PNCP — e reescrita praticamente do zero, a fim de também avaliar se o resultado da contratação foi eficiente e cortar papelada. Mesmo assim, o inciso II do art. 75 é (quase) idêntico ao inciso II do art. 24 da lei de 1993, com a diferença de que agora define um teto fixo (atualmente de R$ 50 mil) ao invés de uma porcentagem sobre o teto da modalidade de concorrência por carta-convite para serviços e produtos em geral.
E, claro, o contrato da Flexspot cai perfeitamente nisso: o valor global para o exercício financeiro — isso é, a soma de todos os custos do contrato para um “ano de orçamento da administração” — é de R$ 3.648, com o serviço em si custando R$ 269 por mês (R$ 3.228 ao ano), e fechando o valor com uma taxa de “instalação, configuração e treinamento” de R$ 420, essa que eu não tenho certeza se é única para todos os cinco anos em que o contrato vigora ou se é cobrada novamente a cada ano:

Até aí, tudo certo de ambos os lados.
A questão que eu levanto é por que assinaram esse contrato em 2025 se o Conecta Gramado já existia desde 2023?
Agora a questão não seria nem capacidade técnica da Flexspot de prover um serviço inclusivo, mas sim essa aparente redundância de serviços.

Para quem não é daqui (ou só não conhece), o Conecta Gramado é um programa com a finalidade de oferecer Internet em locais públicos, e o faz de forma competente.

O portal cativo dele é bem simples. Eu lembro que, de começo, ele pedia um logon e oferecia a você que criasse uma conta, mas isso foi substituído por um botão de aceite para os termos de serviço logo depois.

O Estado, por conta própria, tende a lidar muito mal com tecnologia, então é lógico que esse serviço foi contratado e não feito do zero por algum setor de dentro da Secretaria Municipal de Inovação.
Eu lembro de que, na época em que o portal ainda pedia por um logon, tinha uma logo da Alcatel-Lucent. Mesmo sendo um baita acerto técnico, muito provavelmente foi uma contratação por ampla concorrência e não por dispensa, afinal não é barato instalar e gerenciar dezenas de roteadores pela cidade. Eu também tive curiosidade de saber quem distribui os produtos da Alcatel-Lucent aqui no Brasil, afinal, até onde eu vi numa batida de olho, eles terceirizam a distribuição e o suporte aos produtos de país em país.
Por conta disso (e já que esse artigo já estava demorando mesmo), resolvi catar qual era a licitação exata.
Deu trabalho e tive de recorrer a um bocado de “força bruta” no Google, mas encontrei: foi uma licitação na modalidade de pregão eletrônico, com o critério sendo menor preço por lote.

De primeira, eu tinha encontrado o número do pregão em um desses agregadores de licitações. Como, principalmente para documentos, prefiro fontes oficiais, fui atrás das mesmas informações em algum portal de transparência do governo, o que eu só consegui (por alguma razão) no portal LicitaCon do TCE-RS:

A vencedora foi a Lettel, uma das principais representantes da Alcatel-Lucent Enterprise no país.
De novo: não foi uma escolha técnica direta, foi justamente a inevitável concorrência no pregão que levou a esse fim.
E, por falar em acerto técnico, abro uma pequena tangente para dizer que a execução do Conecta Gramado está sendo um dos únicos acertos de toda a administração Tissot em seus quase 16 anos somados de mandato. Não é só para inglês ver, diferente de outros aparentes acertos como, por exemplo, o decreto 2277/2025, que impôs suspensão sobre novos projetos de hotéis e restaurantes, mas que, na prática, não serve para nada já que não afeta empreendimentos que realmente pesam na infraestrutura e no meio ambiente.
Outro “acerto” só para inglês ver são as novas placas que avisam sobre a presença de animais silvestres em vias de alto fluxo de veículos, coisa que soa como uma baita gol de placa, mas que, na prática, não tem nenhum peso a nível legal, nem ao menos uma multa para quem praticamente as ignora. A propósito, se a Secretaria Municipal do Meio Ambiente está tão preocupada em “reduzir o risco de atropelamentos da fauna silvestre”, por que não fazer um esforço conjunto com a Secretaria de Planejamento e começar a pesar a mão em cima de certas construtoras e incorporadoras que vêm a passar por cima (literalmente) da fauna e da história da cidade com maquinário e concreto para construir pseudo-cidadelas faux européennes (ou helveto-goianas se preferir) ditas de “alto padrão” para gente que não aparenta ter ao menos repertório acerca da cidade além das clássicas fotos da Av. Borges de Medeiros?
Se vocês precisarem de uma ideia de como pesar a mão, dou-lhes não uma, mas duas de brinde: comecem a não emitir mais licenças de construção a torto e a direito como se fossem brindes de aniversário. Isso, há dois ou três anos, já teria impedido muito da desfiguração que vem a cavalo.
Para o futuro? Eu só espero (e faço minha parte para) que mais gente com ideias como as de Marina Silva tome o lugar de desenvolvimentistas, sejam da direita ou da traseira, no legislativo — e não estou a falar somente de Gramado.
Talvez assim possamos ter atos mais eficazes, como a criação de modelos de compensação tributária por dano histórico-ambiental contínuo — e, até mesmo, que possa ser também destinado ao social por meio de investimentos na cultura e na educação; afinal não se pode permitir que esse tipo de “"”desenvolvimento””” urbano cause uma “hukouização” da nova população que virá, filha de quem foi “importado” como mão-de-obra sazonal de outro estado, e nem mesmo do nativo que acabou por mudar de bairro, principalmente hoje em dia e em um país livre como o nosso.
Creio que pedir alguma ação por parte da Secretaria do Meio Ambiente em defesa do meio ambiente não seja pedir demais, certo?
Fecho aqui essa tangente antes que vire um puxadinho dentro desse artigo, isso se já não virou.

Mas bem, é agora que vem a grande reviravolta, o plot twist: o contrato da Flexspot com a Câmara precede a existência do Conecta Gramado em coisa de 1 ano.
Espero que você esteja tão surpreso quanto eu estive quando descobri isso.
Encurtando o caminho que eu fiz, eu basicamente fui até o portal da transparência da Câmara, camaragramado.atende.net — e sim, é exatamente aquela que a gente tentou acessar pela página da Câmara sem sucesso —, e pesquisei por todas as licitações que estivessem em formato digital (ou seja, desde 2015) envolvendo a Flex It:

Por conveniência, o portal da transparência permite que emitamos um PDF que lista licitações dentro dos critérios pesquisados de forma mais detalhada:

Não há anexos lá por alguma razão, então não consegui ver detalhes maiores acerca da contratação de forma destrinchada, como fiz com a de 2025. Presumo que isso seja porque o contrato foi feito sob a antiga lei de licitações, a 8.666/1993 que já falei sobre antes, então eles ainda não teriam obrigação legal de deixar esses dados disponíveis na Internet.
Esse primeiro contrato foi renovado para 2022, 2023 e 2024 por meio de termos aditivos e, pouco antes de fazer cinco anos, que é o limite de termos aditivos da antiga lei, foi refeito sob a nova lei (como recém mostrei).
Definitivamente, eu seria um ótimo roteirista de novela. Fiz questão de apresentar a lei antiga para licitações antes de falar da nova justamente porque, antes de escrever aquele bloco, eu já sabia que ela apareceria.
Uma pena que Vale Tudo já acabou… Talvez eu pudesse ter escrito um final melhor do que aquilo.

Independentemente, a pergunta persiste e, por uma questão de honestidade com esse novo fato, irei refazê-la: por que continuar com o serviço nos anos de 2024 e 2025 (e ainda renovar para mais cinco anos) quando o Conecta Gramado já funcionava a pleno vapor? Não seria redundante?

Simples: Porque não é redundante na prática.
A Flexspot não oferece um serviço de portal cativo “cru”, mas todo um arcabouço para publicidade — o que, na prática, é saber mais sobre quem frequenta seu estabelecimento e entra na sua rede.
Inclusive, esse é justamente o ponto principal deles fora o Wi-Fi:

E é lógico que tais serviços são úteis para quem tem a função de ser a voz (e a casa) do povo, no mínimo para entender o perfil de quem aparece lá com frequência (ou não), seja para cobrar, seja para rasgar seda para o Partido.
Sim, o contrato da Câmara nunca especificou isso — por mais que a parte de “monitoramento de acessos à Internet” no contrato de 2021 possa ser interpretada para esse lado —, mas muito possivelmente essas funcionalidades são utilizadas por estarem embutidas no serviço; e, honra seja feita, não há nada de errado nesse ponto em específico (e nem ao menos moralmente), afinal, enfatizo: a casa do povo há de conhecê-lo e, se há ferramentas legítimas para isso, que sejam utilizadas.

Agora você talvez esteja se perguntando por que eu revirei tudo isso se está tudo certo e quando a contratação da Flexspot pela Câmara tem uma finalidade real.
Uma resposta curta e “lacrada” é que foi porque eu sou chato, como já disse (e talvez com um certo orgulho).

No entanto, faço questão de dar uma boa (e maior) resposta: registros públicos precisam ser expostos ao sol de tempos em tempos para que não mofem, até porque mofo é uma coisa chata de conter depois. Ele se espalha fácil, principalmente em uma cidade úmida como Gramado, onde boa parte da população já não costuma abrir as janelas por boa parte do ano por receio de que esteja frio (e alguns por rabugentice mesmo).

Existem cidades, e até mesmo estados inteiros, cujos registros públicos mofaram tanto que o mofo se espalhou além das paredes das instituições, já danificadas há tempos, e começou a se impregnar nas paredes de bares, mercados e casas, enfim, na rēs prīvāta, fazendo com que esses lugares se tornassem insalubres, tóxicos de se ficar por mais de alguns dias sequer.
Um exemplo quase caricatural, e que creio que você já tenha ouvido de tão ridículo que foi, é o caso da cidade de São Luiz do Anauá, em Roraima. Vale a pena pesquisar mais sobre, até porque ele não envolveu apenas as instituições locais, mas também parte do nosso Congresso Nacional.

Se não quisermos que Gramado (e mais qualquer outra cidade) mofe, é bom que abramos as janelas de suas instituições e coloquemos seus registros ao sol com mais frequência.

E sim, eu parafraseei aqui o falecido juiz da Suprema Corte dos Estados Unidos e, por acaso, meu “xará etimológico” Louis D. Brandeis; mais especificamente seu artigo publicado em 20 de Dezembro de 1913 na revista Harper’s Weekly, chamado “What Publicity Can Do” (ou “Do que a transparência é capaz”, em tradução livre), onde ele advogou por um ato legal que compele transparência sobre o real valor de lucros e de comissões cobradas por banqueiros sobre títulos financeiros, a fim de que investidores pudessem saber o quanto realmente receberiam, tendo maior liberdade de escolha a partir do momento que teriam mais informação sobre onde estariam investindo.
O argumento de Brandeis também cobria o fato de que, com os investidores sabendo o quanto banqueiros receberiam de comissão, elas naturalmente, por pressão mercadológica, diminuiriam, assim com esses banqueiros acabando por acumular menos capital, e, por tabela, não concentrando mais tanto poder. Isso, claro, é apenas um resumo de um artigo de mais de três páginas.
É desse artigo que vem uma frase bárbara: “a luz do sol é dita o melhor dos desinfetantes; a luz elétrica, um dos policiais mais eficientes” (originalmente “Sunlight is said to be the best of disinfectants; electric light the most efficient policeman.”).

Ilustração presente na terceira página do artigo

Por que faço questão de detalhar isso?
Além de eu acreditar que o Brandeis não seja tão conhecido aqui no Brasil, eu preciso que você tenha uma certa noção de tempo.
Mesmo com o Brandeis tendo advogado em prol da transparência como lei, tanto para órgãos públicos quanto para privados por meio de regulação, a mais de 100 anos atrás, a transparência estatal no Brasil ainda é extremamente recente, com todas as Constituições desde a Independência até a de 1988, da Nova República, tendo segredo como regra; isso, aliás, eu descobri com certeza graças ao excelente artigo da prof.ª Lúcia Helena Corrêa Solci, especialista em Ciência da Informação e docente adjunta na UFES, “ACESSO À INFORMAÇÃO PÚBLICA NO BRASIL: DO IMPÉRIO À REPÚBLICA”.
Se formos otimistas e considerarmos que o inciso XXXIII do art. 5 da Constituição de ‘88 foi seguido, desde que promulgado, absolutamente à risca, sem nenhum impedimento e/ou nenhuma lei que tentasse contorná-lo, o acesso franco à informação no Brasil, um país de 204 anos de história, existiria somente há 38 anos. Na prática, o buraco é mais embaixo — e a prof.ª Solci disserta a respeito disso com muito mais maestria do que eu poderia aqui —, mas, em suma, a transparência estatal enquanto direito cidadão só foi ratificada com a lei 12.527/2011, a Lei de Acesso à Informação; ou seja, é algo que temos apenas há 15 anos.

Antes tarde do que nunca, realmente. O meu ponto é que é algo que se demorou demais para se conquistar, assim como a democracia por si só, e que é bom usarmos sempre que tivermos qualquer questionamento em relação a alguma ação pública. Não custa dar uma batida de olho — e, se estiver tudo certo, não é nada mais do que a obrigação.

A propósito, só um último comentário quanto à fiscalização: se cada um fizer sua parte de pesquisar seu candidato, votar corretamente e fiscalizar a sua cidade, o Brasil por inteiro vai ser um país melhor. Isso é patriotismo.
Sim, eu compreendo que, para um trabalhador-médio — ou até mesmo um estudante, vide que demorei mais de três meses para costurar esse artigo de cabo a rabo — que passa ⅓ do dia na rua, tal trabalho seja bem difícil de se fazer. E é até pior onde não se tenha muita instrução.
A grande questão é que não precisa de todos os 200 milhões de brasileiros simultaneamente fiscalizando para fazer barulho. Há muita gente paga de revolucinha nas redes sociais e clama pelo fim da Nova República, ou que dá pitaco em política mas não faz absolutamente nada para resolver, e que poderia, ao invés de defender regimes e ideologias falidas e passados idílicos que nunca existiram, estar a pesquisar e começar a botar ordem na própria rua.
Mas para você, trabalhador, ou classe baixa e afins, que não tem tempo de pesquisar a fundo: busque votar de forma que menos gente corrupta possa entrar. Se algum político oferece uma cesta básica ou uma promessa de infraestrutura como, sei lá, brita em troca de seu voto, é porque ele quer mesmo comprar a sua liberdade de escolha; e isso já diz muito mais sobre o que ele planeja fazer quando assumir o cargo do que qualquer outra coisa.
Não venda sua liberdade por um prato de comida (por mais difícil que seja!), pois você vai acabar sem ter nenhuma das duas coisas e também vai condenar seus compatriotas a quatro anos de uma administração que é, na absoluta melhor das hipóteses, medíocre.
Eu gostaria de ressaltar, no entanto, que não me refiro a programas governamentais que são regulamentados — apesar de haver casos na história recente da Nova República em que a máquina pública da União foi utilizada para compra de votos, como os vários “Auxílios Brasil” criados na segunda metade de 2022 —, afinal eles, além de terem isonomia e critérios para participar, são essenciais para a reinserção de diversos cidadãos no mercado de trabalho a partir do momento em que esses recebem o mínimo de dignidade.

E que bom que tudo está nos conformes aqui em relação aos contratos da Câmara com a Flexspot, ruim mesmo seria se tivesse algum problema.

A fiscalização, muitas das vezes, serve para provar que alguém é verdadeiramente honesto.

Então, o que muda com a Flexspot tendo um contrato público ou não?
Bem, agora eu, enquanto morador e contribuinte de Gramado, tenho absoluta vênia para cobrá-los pela incompatibilidade que o serviço deles apresenta com meu aparelho e, possivelmente, com mais outros.
E sim, eu reconheço que qualquer aparelho eventualmente será obsoleto, por mais que hoje em dia os saltos de uma geração para outra já não sejam tão grandes.
A questão é que inconveniências como essa aceleram a percepção da finitude de uma plataforma que ainda tem um tempo de vida pela frente.
Há vários casos assim, principalmente nos dias de hoje, como o caso da Meta removendo suporte para o WhatsApp sobre o KaiOS. No entanto, é lógico que a Flexspot não acabou por aniquilar um concorrente no mercado de telefones celulares e muito menos causou incompatibilidade por má-fé, mas o resultado prático acaba sendo o mesmo e o motivo, uma obsolescência literalmente programada, também.
Por falar nisso, lembrei que o agora vereador e antes prof. Lazaretti nos fez refletir sobre a questão de obsolescência programada e lixo eletrônico na sala de aula lá em 2019, dentro de um contexto maior acerca da preservação ambiental, salvo engano — por mais que o agora vereador provavelmente não lembre, afinal ele parece ter ficado com amnésia desde que assumiu o cargo, ao menos não parece lembrar de muitos de seus ex-alunos, o que é uma pena.
Evoco o nome do Excelentíssimo Senhor Vereador não a fim de “mandar recado” por meio da tribuna e nem de tentar pressionar alguma alteração no contrato em si — até porque, reitero, ele tem a sua utilidade à Câmara e a Flexspot trabalhou certo até hoje —, mas a fim de lembrar já que não costumo ver ex-professores citados com frequência em textos opinativos no geral.

Eu já consigo prever que algum tech bro, muito provavelmente também programador, já está pensando em como me “refutar”. Inclusive, já sei até o argumento: ora pois, se a Flexspot tiver que tornar sua solução compatível para absolutamente todos os públicos, eles terão de portabilizar o código para rodar no navegador do Symbian! E cadê meu WhatsApp para Samsung Ch@t 222?!?
São espantalhos engraçadinhos, mas, na prática, é um ad ridiculum. E a diferença entre a prática e o ridículo é homérica.
Apesar da porcentagem de fatia de mercado parecer minúscula e, a cada dia que se passa, a fatia da última versão só crescer — volatilidade que muito se deve a atualizações por rede (Over-the-air), que atualizam centenas de milhares de aparelhos literalmente da noite para o dia —, versões mais antigas (pós-segunda metade de 2010 e pré-2020) do Android ainda são incrivelmente usadas, como o Pie (principalmente pelo Android Go), o Oreo e até mesmo o Nougat, visto que a própria Google ainda mantém suporte pelo Google Play Services.
Segundo o StatCounter, o Android Oreo (o que roda no meu aparelho) ainda segura firmemente 2,56% no mundo todo, e essa estatística é de Janeiro desse ano.
Se eu for ser otimista e presumir que o portal da Flexspot roda sem nenhum problema a partir do Android Pie e considerar, por uma questão de vida real, apenas as versões que a Google ainda suporta oficialmente fora a que eu uso, essas que são o Marshmallow (1,62% do mercado) e o Nougat (cerca de 1,26% em Janeiro de 2025, ano passado), a porcentagem de dispositivos não-suportados apenas pela métrica de versão soma 5,44% globais dos usuários de Android.
Não dá nem para dizer que parece irrisório porque, pensando na clássica analogia de “100% são R$ 100” que tivemos no Fundamental I, é até que uma graninha para se dar como perdida.
Ou seja, reitero: a situação das versões 6 até a 8 do Android, usadas diariamente por centenas de milhares de pessoas pelo globo, ainda tem uma diferença homérica para qualquer deboche que queira se fazer; principalmente quando lembramos que a maioria dos aparelhos da Nokia (os mais modernos que rodavam o tal Symbian) está na mão de colecionadores/hobbistas ou pifado no fundo de uma gaveta.

E agora sei que algum de meus caros comunícipes, muito possivelmente simpático ao Partido, vai discordar de mim em absolutamente tudo nesse artigo. Todavia, na falta de um argumento técnico, creio que o que virá é um argumento censitário com um pingo de bairrismo — inclusive, bem comum (ao menos mais do que sequer deveria) em comentários de postagens de jornais locais no Instagram —, que consistirá em algo na linha de “se o cara não pode comprar um celular ‘decente’, não deveria pensar em viajar para Gramado” porque é um “chinelão”.
Eu faço questão de responder essa, por mais que eu tenha noção de que, para alguém que pensa assim, comunícipe ou não, as ideias aqui expressas acabam por ser complexas demais — além de que, sendo franco, creio que esse alguém também não passaria dos primeiros parágrafos; e nem por falta de tempo, mas pelo puro exercício da ignorância.
Antes de tudo, quero deixar claro que eu não creio (para não dizer que tenho certeza absoluta) que a equipe de desenvolvedores responsável pelo portal da Flexspot pense de tal maneira e muito menos que eles tenham “fabricado” a incompatibilidade, principalmente por não beneficiá-los de forma nenhuma, nem ao menos na performance do produto no aparelho do usuário. Diga-se de passagem, acredito que isso seja uma questão que envolva, até mesmo, código externo, como algum framework.
Dito isso, bem, vamos ao que interessa.
A princípio, o argumento soa plausível. Gramado, para quem é turista, não é conhecida como uma cidade barata, visto que as experiências turísticas que fazem de Gramado o que é são, em geral, pagas.
Logo, pode parecer lógico que quem não consiga trocar de aparelho para um lançado após 2021 também não consiga aproveitar a cidade.

Eu até poderia tentar peleijar me usando do fato de que Gramado tem ficado mais, digamos, “acessível” na última década — principalmente com maior competitividade no mercado de hotelaria, bares e restaurantes e com a expansão de acordos entre agências de viagem e empresas locais — e também que, para quem vem morar aqui, Gramado se mostra, em vários aspectos, com um maior custo-benefício do que cidades como Caxias do Sul e Porto Alegre.
No entanto, além dessa abordagem (mesmo que factual) legitimar esse argumento censitarista e barato para obsolescência programada — e claramente ir contra a ideia de que o serviço deve ter o maior alcance social possível, principalmente quando se leva em conta que passou a ser contratado pelo Estado e pago pela população, mesmo que para servir só um prédio —, o argumento por si só não tem lastro.
Aliás, se considerarmos que o “não pode” é um “não tem” — ou seja, mera força de expressão, como se é comum —, eu ainda hei de dizer que esse argumento tem uma falha grave de lógica formal, pois sofre de non sequitur, mais especificamente de uma negação de antecedente. Falando em português, se confunde alhos e bugalhos.

Por quê? Simples, não necessariamente o modelo de um celular (ou efetivamente de 90% dos bens de consumo duráveis) corresponde exatamente à capacidade financeira de alguém e de sua família.
Inclusive, dobro a aposta e digo que há um certo ponto em que a situação inverte: o quanto mais riqueza alguém tiver/administrar, mais difícil vai ser de fazer gastos em bens de consumo duráveis com frequência — e, com “frequência”, leia-se em menos de cinco anos.
Creio que todos nós tenhamos algum exemplo anedótico sobre isso para citar e, vira e mexe, sai algum na mídia como uma “curiosidade” sobre algum famoso.

Ademais, considerando que Gramado é uma cidade bucólica, há de se considerar um outro caso: quem vem a fim de se desconectar pela maior parte do tempo.
Esse tipo de turista normalmente vem a Gramado para, além de aproveitar a paisagem e algum dos vários eventos que rolam durante o ano, também se isolar do trabalho (ou de redes sociais em si) por um tempo.
Falando em “exemplos anedóticos que saem na mídia”, creio que caiba citar uma das pessoas que mais ganhou destaque na mídia na primeira metade desse ano: Alysa Liu. Mais especificamente, uma frase dela em uma entrevista de Setembro de 2020, onde ela diz preferir ficar longe de redes sociais por achar o uso contínuo exaustivo.
Sim, a entrevista é antiga, mas ela parece manter esse posicionamento de uso mínimo até os dias de hoje.
Eu a cito não pela questão de hardware em si — até porque ela carrega um Galaxy Z Flip aparentemente dado pela própria Samsung — mas sim por ela representar bem midiaticamente a tendência cultural de optar por ficar longe das redes; e engato isso no fato de que sim, muitas pessoas vêm tomando medidas mais, digamos, “extremas” para se afastarem.

Acho que uma das maiores provas de que isso ocorre com uma certa frequência é que restaurantes como o Containner Bistrot, de Canela, acabam por oferecer tanto um menu digital, por meio de um QR-code, quanto um físico.
Cito especificamente o Containner Bistrot pois fui lá com uns parentes mês retrasado e perguntei se poderia utilizá-los de exemplo nesse artigo e, já que aceitaram, cá está:

   

Claro que isso seria um exemplo relativamente extremo entre analógico ou digital — e obviamente não estou dizendo que a Flexspot deveria começar a entregar papéis com o nome e a senha do Wi-Fi escritos para os seus clientes colarem nas paredes de seus estabelecimentos —, mas, se ainda atualizam os menus físicos e arcam com os eventuais custos de mantê-los, é porque ainda são bem usados.

Não estou dizendo que eles mantêm os menus físicos apenas por causa de pessoas que ainda usam celulares antigos, mas é um bom exemplo do ponto que quero levantar de que várias das pessoas que viajam para cá preferirem usar menos tecnologia, e que algumas, até por uma questão de segurança (apesar de casos de batedores de carteira serem raríssimos aqui na Serra Gaúcha), deixarem seus celulares principais em casa e trazerem um secundário (e mais antigo) apenas para o básico de comunicação e alguns serviços como Uber, por exemplo.
E sim, eu sei que por mais contraintuitivo que seja reclamar da inconveniência para acessar a Internet usando a justificativa de que há gente querendo, justamente, se desconectar, é fato que o uso de diversos serviços é impraticável — ou, no mínimo, extremamente inconveniente (sem trocadilho) — sem Internet.
Engatando no exemplo do Uber: uma corrida de táxi é muito mais cara (para não dizer que é literalmente mais do que o dobro do preço) do que o mesmo trajeto no Uber ou em outro aplicativo similar — e, convenhamos, ninguém gosta de ter um gasto desnecessário, independente do serviço e da conta bancária.

Eu até poderia fazer um fechamento dramático de como aquele argumento censitarista caiu por terra após os fatos mas, francamente, seria me repetir (e mais do que já fiz aqui).

Falando sobre o meu caso: não sou investidor, nem agente secreto, nem um grande pintor, nem um atleta e nem um ludita em si.
Eu sou programador, estudo Engenharia da Computação — não, não sou estudante de Jornalismo e nem de Direito (e creio que deveria ter dito isso antes de falar sobre leis) — e, como trabalho, sou legendista, e posso dizer com certeza que passo muito mais tempo usando o computador do que o telefone.
Inclusive, sim, eu admito que é extremamente útil para outras coisas além de comunicação, como as funções multimídia para gravar áudio, vídeo e tirar fotos — até porque duvido que alguém consiga carregar uma câmera e um gravador de áudio sem estar indo para um set de filmagens ou para uma entrevista —, no entanto, apesar de eu até desejar uma câmera melhor, eu não pretendo comprar um novo enquanto a minha versão do Android for suportada — e, quando acabar o suporte, é capaz que eu atualize para uma outra ROM.
Em resumo, não se mexe em time que está ganhando.

Bem, finalmente chego ao fim, mas só mais uma coisa antes de fechar: eu gostaria de dizer que as portas desse blog estão abertas para a Flexspot. Além do que vocês já têm garantido legalmente pelo direito de resposta, eu gostaria de abrir espaço para um artigo com teor técnico maior, como é de costume meu aqui, falando sobre o produto e, claro, sobre o bug em si.
E faço questão de dizer, de coração, que isso seria uma honra, ainda mais considerando o tempo em que vocês estão na ativa.

Agradeço mesmo pela (longa) leitura e até a próxima.